quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Amor que neguei...




Corri todos os riscos, eu sei..
Fiz de tudo para negar o que sentia
Mas era mais forte que a minha vontade
Minha mente negava o que meu coração desejava!

Foi assim que entreguei-te o meu olhar insistente
Chamei sua atenção
Aos poucos, você correspondeu-me
Então, foi o começo de minha triste história.

Fui punido pelo resto de minha vida,
Aprisionado numa masmorra
Vendo a revolta crescer dentro de mim
Já não havia mais lágrimas

A dor era tão profunda que o amor que eu sentia
Aos poucos transformou-se em ódio mortal
Por tudo e por todos
Eu precisava da vingança

Foi assim que parti, caindo em profunda decadência moral
Combati muitos, sucumbi em sombras profundas
Tornei-me um senhor das trevas
Comandei legiões, não perdoava a ninguém

Meu exército era poderoso, imbatível
Busquei e aprisionei ao verdugo que tanto mal me causou
Castiguei-o até destruí-lo ao estado dum ovoide

Mesmo assim, meu coração não encontrou a paz
Por séculos sem fim, andei vagando e sugando vidas
Dilacerei muitos, tornei-me um demônio
Não perdoava, não amava mais nada e nem a ninguém

Negava-me a oportunidade de perdoar
Mesmo quando minhas próprias vítimas me perdoavam
Ainda assim, eu as odiava...tentando resgatar o que perdi
Vingando-me de todos e de tudo!

Foi tanto ódio guardado que caí em completa auto-destruição
Meus órgãos mais importantes se dilaceravam
Até mesmo minha mente se esvaía em devaneios umbríferos
Desci até onde nada existia de humano em mim

A dor e o ódio me dilaceravam como uma faca, que cortava minha própria alma
Extinguindo-me da existência das criaturas

Quando nada mais restava para resgatar de minha vingança
Dei-me conta de que havia sido amado um dia
Onde estaria aquela que tanto amor me ofereceu?
Era minha única lembrança da vaga paz, que ainda habitava em minha dor milenar

Então num esforço profundo, quase maior que meu próprio sofrimento
Chamei-te com a voz de meu coração
Morto estava eu para o universo, já não existia mais humanidade dentro de mim
Já não conseguia nem mesmo odiar, queria apenas ver-te uma última vez

Apaguei-me em morte da consciência
Ressuscitado fui por um beijo, dado com tanto amor
Trazendo-me de volta ao viver de minha individualidade
Havia se passado mil anos...e ainda tinha o seu amor em mim!

Chorei em seus braços, pedi o seu perdão e reconheci as minhas culpas
Meus crimes, todas as vítimas que fiz no tempo
Havia causado tanta dor, tanto sofrimento que não mereceria mais existir
Assim mesmo, anjo...vieste ao meu encontro, descendo até as regiões sombrias em que me pus

Alimentaste meu coração com seu amor e seu perdão
Lembro ainda de seus olhos a fitar-me no momento de meu despertar
Dizendo-me..."volte pra mim!"

Aqui estou meu anjo, nesse sonho consciente, recebendo-te novamente
Prometendo-te que irei até onde você está,
Mesmo que demore mais mil anos
Plantarei a paz, resgatarei todos os meu crimes

Porque amar-te é meu destino e o motivo de minha existência!
Encontrar-te-ei um dia...então livre das masmorras que aprisionaram meu coração
Para unir-me a ti...no país das estrelas!

Ghost



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Deborah




Querida irmã, que há tempos não contacto, que saudades tuas...
Não digo que há tempos não a vejo, pois a tenho visto sempre nas minhas lembranças!
Vejo que choras, pareces tão triste...
Da última vez que você me viu, eu usava um vestido branco, com bordados azuis, desgrenhado e sujo de minhas andanças no quintal; sempre amei a natureza, como sabes, e amo-a ainda mais aqui de onde posso ver a verdadeira grandiosidade da teia da vida.
Eu ainda era uma jovenzinha, mas de lá para cá, cresci tanto, e como queria que me visses agora!
Como eu poderia ir embora tranquila, deixando-te assim?
Imaginando-me só, te escondes dos outros... 
Pensando-me pra sempre perdida, te proíbes o riso, ofereces teu corpo à inércia.

Lembro-me de como era nosso inverno, uma sucessão de dias sombrios, cinzentos, amargos...
E foi num desses dias que peguei a câmera que me deste, e saí a fotografar aquelas paisagens desmaiadas na tristeza da chuva e do frio.
E foi quando olhei as fotos que percebi algo que não havia visto antes, no olhar panorâmico que eu lançava às coisas:
Ela estava lá, pequena flor que se misturou à imagem e que em sua humildade não se sobressaiu...
Por brincadeira, fui fotografando assim, a esmo, tudo o que via...
E em cada canto a vida teimava em viver.

Mesmo no guarda-chuva esquecido no banco, havia ainda a mão de quem lá o deixou. Na vila pobre, as crianças sorriam...
Acho que foi assim que me chamou a atenção a lágrima que em teu rosto rolava.
Em meio a todo o espaço por onde agora eu poderia planar, aquela pequena gota de prata paralisou-me...
E vi que em meio à vida, havia dor.

Irmãzinha, eras a mais velha...mas agora, ao contemplar todas as vidas que já tive, vejo-me eu a mais velha, a mais experiente, e apta a te consolar, assim como me consolavas quando eu não entendia as asperezas da vida. Mas pra isso, querida menina, preciso que te permitas ser confortada, não bloqueando teu coração com tanta tristeza, a ponto de eu não conseguir te atingir com meus pensamentos de amor. Um dia, vais me ver com teus olhos novamente, e eu te direi que valeu a pena a breve separação que me deu tempo de amadurecer para oferecer a ti e aos outros um coração mais sábio. Essa é a pessoa que eu desejo ser...como ainda não posso sê-la, ao menos me cerco das coisas que ela faria. Eu trabalho, eu coopero, eu estudo. E te espero.

Agora deixa-me partir. Sou uma andorinha...!
Olha pra mim com toda tua alma: sinta meu olhar e minha bênção, pois antes desta carta terminar, quero ver a luz azul dos teus olhos. Esse será o farol que me guiará a ti, quando aqui chegares.

Um beijo de beija-flor...da tua irmã
Deborah


Bíndi




terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Luz de Todos Nós!


Sei que sou falho, sei que me falta fé, às vezes nem sei o que é fé
Só sei que preciso de ti em meu coração
Talvez seja isso que queres de mim, seja essa a fé que buscas em mim
Por isso me provas em cada dia, em cada luta, em cada tentação

Me vejo perdido, na raiva, na incompreensão, na humilhação
Confesso, penso que o mal está vencendo
Noutros dias vejo o quanto és milagroso e poderoso
No ar que respiro, em meus sentimentos de bondade ao próximo tu estás

Essa parte me faz reviver, sinto o milagre que sou, o abraço que sinto vontade de dar na criança que chora
O carinho que recebo na lágrima que cai
A frase dita sem pretensão, mas que me devolve as forças para viver
O exemplo do que luta com as forças que lhe restam.

Renasce-me Pai...tira esse dom de luz do fundo de meu peito
Apaga as mágoas, domina meu coração, ensina-me a paciência e a sabedoria diante do irmão intratável
Faz-me reviver a alma 
Ao invés da angústia, dá-me tua luz...ensina-me a fraternidade que alivia dores e desesperanças.

Mostra-me que sou parte de vós, que és tudo e o todo
Faz-me o deus de amor que te busca no infinito
Deus, levanta-me, guia-me, faz-me um mensageiro de amor e compreensão, diante das lágrimas do irmão que sofre na missão da vida...faz-me luz Pai...cuida de nós!

G h o s t


sábado, 15 de agosto de 2015

Tudo por um grande amor...sempre e eternamente



Então, naquele dia, senti um calor enorme me envolvendo, e me virei
E vi teus olhos, doces, ternos, tímidos me olhando
Olhar que nunca, em dia algum, esquecerei,
pois foi o primeiro raio de sol desse amor me acariciando.
Fomos felizes, por dias, meses, como borboletas soltas no jardim
Nada nos preocupava, o mundo era só nosso, e puro encanto
Mas a vida tinha outros, bem diversos planos para mim.

O envelope branco, imaculado, lacrado ainda em seus mistérios
Era o selo do meu destino, também do teu, por conseguinte
E veio a ser o que eu temia, portador triste de um problema sério
Que me afastaria do mundo e do teu amor, talvez pra sempre.
Doente eu estava...e em meu desespero desejava te poupar
Do sofrimento de acompanhar de perto minha peregrinação
Portanto preferi de ti me afastar assim, abruptamente
Pois sei que a raiva te doeria menos do que a compaixão.

De egoísmo me acusaram, de leviana e de fraca confiança
Pois o amor, disseram, é para todos os momentos,
sejam de alegria, de tristeza, de saúde ou de doença...
Vaidade, talvez...? Piedade, fraqueza, não sei...talvez possas nomear assim.
O turbilhão de sentimentos que acolhi no peito me debilitara tanto
Que mesmo nosso luminoso amor não o conseguiu desvencilhar de mim.

Hoje, curada e forte, sei que talvez tenha perdido a minha chance
Pois mesmo sabendo que venci a morte, posso não eliminar a dor do desencanto.
Estou aqui, agora, em frente à tua porta. Ainda estão lá aquelas violetas
que contigo cultivei, e que amavas tanto.
Aquela rachadura na parede é nova...as janelas parecem de outra cor.
Pergunto-me se haverá espaço pra mim em tua vida ainda,
Ou se já o destes a um novo e mais seguro amor.

Ouço passos lá dentro em direção à porta...
Aprumo-me em uma onda de nervosa inquietação
O que dirás, se vir à tua frente aquela que talvez já morta
Estava, e sepultada para sempre no teu coração?

Teu rosto eu vejo, sob a vidraça embaciada pela chuva fria
Nunca esquecerei, por certo, a tua exclamação brejeira
Aqui estou, entregue à tua decisão que me fará contente ou triste
Pois minha vida, eu a resgatei da morte para te entregar inteira. 

Bíndi

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tudo Por Um Grande Amor!!



Numa manhã qualquer, a visão de uma mulher diante de mim
Instintivamente a olhei despercebidamente
Então segui meu caminho sem olhar para trás

Mais tarde a mesma mulher estava em meu local de trabalho
Era minha mais nova colega
Várias vezes nos cruzamos, nem ao menos nos dávamos um simples "oi"
Mas a cada vez que ela passava por mim, eu sentia vontade de segui-la, sem saber o motivo

Muitas semanas, meses se passaram assim...
Como estávamos em setores opostos, não a via com tanta frequência 
Mas os olhares, quando a via, cada vez mais começavam a mexer comigo
O perfume dela, o modo que ela andava, tudo me fascinava

Até que um dia eu passei por ela, como tantas outras vezes, mas olhei para trás
E encontrei o olhar dela em mim...
O chão se abriu, o céu se iluminou, passarinhos cantavam ao meu redor
Acho que fiquei roxo, azul, sem cor..então ela sorriu tão carinhosamente...

Desde então dávamos um sorriso ao passar um pelo outro
Desses sorrisos, nasceu uma proximidade, então conversamos por única vez
Mais nada precisou para que o mundo se transformasse para mim
Não conseguia dormir sem ligar para ela, ouvir a sua doce voz ao meu ouvido, era a minha canção de ninar.

Começamos a viver um grande amor, daqueles que nos envolvem até nos sonhos
Sempre era primavera para nós...as músicas eram lindas
Nossos passeios a sós..era pura magia de amor
Mesmo um simples sentar num banco qualquer, era mágico, hipnotizado por aquele olhar

Mas...descobri que tudo era mágico demais, para ser real...
Numa manhã de chuva, eu soube que ela havia se despedido da empresa, sem prévio aviso
Minhas ilusões foram com ela, meus sonhos morreram todos naquele dia...
Minhas ligações não mais eram atendidas, não pude mais ouvir a sua doce voz

Nem mesmo pistas de onde ela poderia estar pude encontrar...
Procurei pelas ruas, durante noites sem fim, vaguei sem sentido, apenas desejando ver o seu vulto
Mesmo uma sombra dela...me deixaria feliz...
Acho que entendi como se sente um cão abandonado por seu dono.

Hoje, essas recordações me trazem perguntas e respostas...
Como um grande amor pode acabar assim?!
Mas, se eu não a tivesse encontrado...jamais teria descoberto o sentido de amar alguém!
Então...posso repousar em minha solidão, no silêncio de meus dias e noites...as lembranças me confortam a alma.

Posso ouvir a sua doce voz, em meu silêncio!

Ghost

quinta-feira, 16 de julho de 2015

As Mãos Vazias do Cristo



Quando a luz da madrugada tremeluzente luzia
Janúncio pegou a enxada e foi ao labor do dia
Passando pela igrejinha, em sinal de reverência,
fez o sinal da cruz, pra Deus ter dele clemência.
Mas a sua alma encravada em corpo robusto e sadio,
de dúvidas era cercada: seu coração era frio.
Era simples, o Janúncio,
como milhões de outros tantos,
que não sendo bandidos nem santos
são cidadãos dormentes do mundo
​Que​ se deitam letárgicos à estrada
para que por eles passe
o comboio das ilusões
que os encontra, modorrentos,
fecundos mas sonolentos,
vivendo ao sabor dos ventos
e ao pendor de suas paixões.

Certo dia entrou na igreja um Janúncio enfastiado,
viu o Cristo em seu estrado
de mãos vazias​,​ chamando.
Em sua mente pareceu 

que o Cristo era assim o modelo
do povo pobre, sofrido, que nada tinha de si
a não ser o pão dormido que servia de alimento
que vivia sem alento e precisava de rezas
que era culpado de algo 

desde o princípio dos tempos
que precisava de trilhos para seguir o comboio
e se assemelhava ao trigo, sufocado pelo joio.
Tudo isso fundo calava no coração do Janúncio.
Sua visão se turvava, mas lá do fundo sentia
crescer uma idéia furtiva, ao olhar de novo o Mestre
que sobre o estrado jazia:

Nas mãos vazias do Cristo
cabem todas as virtudes
também erradas atitudes
com que todos viemos à luz
Ele nos estende as mãos limpas
e cheias de liberdade
pra vivermos com sinceridade
os preceitos de Jesus
as mãos vazias do Cristo
nos falam do colo amigo,
do acolhimento irrestrito,
pois não somos pecadores
(não mais que pardais e flores).

Nosso engano foi esquecer
da fonte que nos gerou:
limpa, serena, excelente
que a alma não mais dormente
pode encontrar somente
no momento em que acordou.




Bíndi 

*Imagem: Cristo de mãos vazias - pintor Flávio Scholles
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