Somos um casal que se ama há muitas vidas, se reencontrou nesta, e vai se amar eternamente...
Mas se você não acredita em alma, não crê em muitas vidas, nem aceita a idéia de eternidade, ainda assim acredite no amor: somos a prova de que ele existe, e existirá enquanto um coração humano bater sobre a face deste mundo...pois o amor é, definitivamente, o sal da terra.
Bíndi e Ghost
Foi numa terça-feira que ele chegou, iluminando um dia chuvoso e frio de inverno. Esperei no hospital, abobalhado como todo pai, suando frio enquanto a enfermeira sorridente não chegou com a notícia – era um menino, saudável e forte...
Dali por diante, minha vida se alterou completamente: noites mal dormidas, mas dias de alegria, fraldas sujas, febres e arranhões, e olhos lavados de lágrimas com os gorjeios, as travessuras, os sorrisos...durante toda sua infância, meu filho foi o passarinho que enfeitou a janela pela qual eu espiava para a vida...
Mas algo mudou, no entanto, e acho que eu não percebi...eu trabalhava demais, me preocupava demais, fazia tudo demais, para notar...não percebi as olheiras comendo aos poucos o olhar brilhante, a palidez e a magreza por baixo das roupas largas de adolescente: ser magro era a moda do momento, eu pensava...e depois estuda demais, faz esportes, está sempre ocupado, sempre fora de casa, deve estar com amigos...Amigos que eu nunca me preocupei em saber quem eram, de onde vieram, o que faziam; meu filho passou a ter uma vida dupla, da qual eu me afastei quase que sem perceber, achando normal deixar de ser o herói e amigo pra ser somente o provedor: são coisas da vida, os filhos crescem, separam-se da gente, adolescer é assim, é normal...eu ensinei tudo a ele, falei do certo e errado,com certeza ele deve saber se virar.
Eu queria que ele fosse feliz...prá que tocar em assuntos desagradáveis, pra que comentar o olhar triste que eu via por cima da mesa de jantar, perdido, parado, vazio...porque tumultuar a vidinha pacata com perguntas profundas, que certamente trariam respostas amarguradas, mudar a rotina trilhada todos os dias... Eu procurava alegrá-lo com meu jeito animado e brincalhão, lhe concedia tudo o que pedia, tentava encher-lhe a vida com meus presentes, sempre dizia sim a tudo, porque assim eu teria garantido o seu amor, sem conflitos, nem traumas.
Onde eu errei, se só queria seu bem, se lhe dei tudo...? Por que essa notícia que me chega assim, no meio da noite, sorrateira, sórdida, fria como um corpo coberto de jornais...? Talvez porque eu nunca quis conhecer o lado sombrio daquele que veio de mim, o fardo humano que todos carregam...pelo medo de encontrar no fundo de seus olhos os mesmos medos que os meus, os mesmos traumas, os mesmos desejos desfeitos...me perdoe, meu filho, por não me reconhecer em você, e por não ter a chance de conhecer o homem que você seria um dia; por fantasiar a vida, como um artista no picadeiro, e temer entrar nos bastidores e despir a roupa colorida que eu usava na sua frente. Acho que hoje sei que você preferiria que eu às vezes vestisse meu casaquinho surrado, minhas bermudas furadas...e me sentasse ao seu lado no degrau da porta, sendo apenas um velho pai meio chato, meio ignorante, mas me mostrando igual a você em suas fraquezas e medos...
Onde estiver agora, filho meu, ouça a voz silenciosa do teu pai, que por toda a vida sempre quis te dizer, apenas...Eu Te Amo...!
Bíndi
Imagem: Paren D.Z. Klyuchi Art (*Este é um texto de ficção)
Quando a paz nos unir num tempo eterno, seremos uma só luz
Anjo, volta sempre em meus sonhos, confunde minha realidade que dorme
Estranho encontro, inesperado amor que senti, surpreso fui correspondido
Os laços entre nós afloraram, como a abelha que encontra a flor desejada
Anjo, será que alguém lhe enviou para me fazer ter esperança e paz?!
Queria ser você, matar a saudade de mim, de minha luz, do meu eu divino perdido nessa ilusão...é você, sou eu, somos nós, somos Um
Abraço essa saudade e me entrego ao seu amor
Anjo...mesmo que te vás, sei que voltarás, em meus sonhos
Em suas lágrimas senti a saudade que tínhamos um do outro, adormecido para lhe sentir, ver-te em meu sonho, amar-te em meu coração
Enfim minha procura encontrou a luz que buscava, o milagre se fez em meu aqui existir Anjo, imaginação ou sonho...fantasia e alucinação para muitos...amor para nós...anjo meu, meu anjo.
Andei demais, aquele dia. Corri contra a distância, contra o tempo, contra as lembranças, corri contra o passado e, principalmente, contra o futuro.
Numa cama de hospital, minha mãe jazia. E de olhos fixos na cruz de Cristo na parede, pedia...busquem meu filho, preciso dele antes de sair da vida...tanto tempo sem vê-lo, eu irei em desespero se não me despedir...!
Quando recebi a chamada, não pude acreditar...minha mãe morria...! Não era eterna então, não me esperaria pra sempre junto ao fogão? Eu não teria todo o tempo do mundo pra visitá-la, e tocar de novo seu peito cheio de calor humano, ter seu abraço que me embrulhava todo, ver de novo seu olhar azul antes do momento insano...?
Não...e me enfiei no carro e nele há horas rodo nesta estrada nua. Mas adiante, um carro no acostamento quebra as linhas da paisagem: uma mulher em desespero me acena...e pensando que, também ela, poderia ser a mãe de alguém que a desejava encontrar sã e salva, parei. Não havia casas, nem viva alma por quilômetros além de nós dois ali, naquela região campestre.
Ela apontou o capô levantado de seu carro, e me agradeceu sorrindo por ter sido o único ser vivo a aparecer, em várias horas. Mas nem bem tinha me aproximado dela e outra figura emergiu da sombra, e um ferro gelado me tocou a nuca...
Passa teu dinheiro, teu celular, teu carro, tudo o que tem, não te deixo nem a vida, maninho...a tua hora chegou, aqui, agora.
Nesse momento vi que minha vida não valia nada. Porém não foi por ela que entrei em desespero...mas pela lembrança de minha mãe, me esperando angustiada. Num átomo de segundo a imaginei recebendo uma notícia triste, afundando a cabeça num travesseiro de espinhos, e tal qual o Cristo que ela tanto amava, sangrando por outro alguém.
Eu, que não sabia rezar, nem em nada acreditava, lembrei de Deus e todos os seus anjos, e duas palavras apenas pensei, orei, supliquei...me ajude!
Me ajude Deus, porque não morro sem me despedir de minha mãe querida...Preciso ao menos de mais algumas horas...
Um ruído seco de ramos se partindo veio da margem da estrada. O ladrão e a comparsa, visivelmente apavorados por algo que eu não conseguia ver no momento, fugiram. Voltei-me, mas só vi uma uma camisa quadriculada, vestindo um vulto de chapéu de palha, sumindo na mata do mesmo jeito que apareceu.
Mesmo cambaleando, corri atrás de meu salvador por entre um milharal já há muito tempo colhido, mas nada via além de talos altos e folhas secas.
Entretanto, ao avançar até uma clareira, no chão, de camisa vermelha quadriculada, chapéu de palha, inanimado e desarticulado havia...um espantalho caído.