sábado, 27 de setembro de 2014

Toys



"Um dia, já fomos imperfeitos. Naquele tempo, um fotógrafo fazia lindas fotos de pessoas contando apenas com alguma maquiagem e boa iluminação, unidas à sua arte e habilidade. Mas as fotos não ficavam imaculadas: havia pequenas manchas na pele, ruguinhas, um corpo mais ou menos cheinho, cabelos ​de várias ondulações, culotes, narizes de todos os tamanhos e formas...sim, éramos todos diferentes uns dos outros. 

Então, um dia, aqueles que odiavam a nossa espécie contrataram um especialista. Com ferramentas e filtros de seus softwares maravilhosos, seios cresciam, cinturas afinavam, músculos masculinizavam-se, coxas engrossavam, sardas sumiam, os cabelos não mais se rebelavam...e homens e mulheres se transformavam na imagem desejada da Perfeita Criatura, também denominada SEPSIS: Seres Eternamente Plásticos​ Submetidos à Inteligência Sintética. Mas só podíamos viver ​esta existência de perfeição ​no mundo virtual​; fora do computador, continuávamos "feios" e era impossível nos relacionar uns com os outros, já que não nos reconhecíamos, tão distintos éramos de nossos impecáveis avatares. 

Com o tempo, nós mesmos aprendemos a nos ver com o olhar crítico de nossos criadores. Pouco a pouco, notávamos imperfeições onde antes só víamos expressões de sentimentos e emoções, defeitos onde só percebíamos silhuetas humanas. Medíamos as figuras com nosso olhar, e antes de qualquer coisa, era a aparência de alguém que nos preenchia todo o pensamento. O que aquela criatura era, seu coração, personalidade e jeito, pouco a pouco foi deixando de vir ao caso; somente a perfeição formal era aceitável, o resto era material de descarte. Então, resolveram alterar também nossos corpos reais, e após poucas centenas de cirurgias, já podíamos andar pelas ruas sem nos envergonharmos de nossos prévios feitios boçais e mal projetados. 

Mas restava um detalhe, ainda não retificado pelas ferramentas dos aplicativos: tínhamos um espírito, um restolho de alma dentro de nós que, em alguns indivíduos, ​continuava a manifestar-se em surtos esporádicos de revolta contra o sistema. Mas espertamente, a maioria​ de nós​ foi devidamente doutrinada a pisotear a dignidade destes recalcitrantes, tachando-os de feiosos, velhos, ​bregas, ​pobres, ou inúteis. Engraçado que palavras como "ignorante" ou "burro" caíram totalmente em desuso como insultos, já que os adjetivos aplicavam-se à maioria de nós, então. Desta forma, ser burro ou ignorante era a regra, naturalmente aceita. Afinal de contas, a inteligência ou o caráter eram coisas abstratas, e mais do que tudo, invisíveis: e vivíamos no mundo da aparência. 

Hoje, posso ser considerada uma rebelde neste mundo. Desisti do botox há quase um ano, e ainda conservo muitas partes de meu corpo sem silicone. Mas precisei quebrar meu espelho para não cair numa crise de abstinência de cirurgias...está sendo muito difícil, difícil demais, me tornar humana de novo."

Bíndi 



http://extra.globo.com/famosos/preta-gil-reclama-de-foto-excessivamente-retocada-em-revista-13895844.html



 

 Imagem: http://funny-pictures.picphotos.net/

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Senhores passageiros...boa viagem!!!



Os sinais do céu nos trazem a esperança de um infinito ainda não descoberto pelo homem.
Eles nos fazem cogitar de muitas possibilidades, além de nossa vida tão limitada.
Naves, seres, luzes, aparições...

Hoje não duvidamos mais da existência de várias moradas na casa do Pai.
São bilhões de galáxias, 100 milhões já confirmadas pela ciência, fotograficamente.
Galáxias  com trilhões de estrelas, sendo "impossível" para a raça humana com a atual tecnologia, alcançá-las.

Dependemos de máquinas, enquanto nossa fé é pequena, enquanto nossa visão é de um rato dentro da toca.
Não queremos, nem podemos ver o  todo ao redor, pois isso fere ao nosso orgulho formado  em milhões de anos como sendo  nós o centro do universo.
Mas os tempos nos mostram o inevitável, os avanços nos levam cada vez mais longe da visão limitada de nossa consciência física.

Negar é quase impossível, acreditar que não existe algo lá fora já é absurdo, mas ainda reagimos como selvagens diante da luz, pegamos nossos tacapes e tentamos bater no imaterial, imitando os hipócritas que buscavam Deus em templos, mas  jamais no coração.

Aos poucos nos é revelado parte infinitesimal de um universo conhecido em fagulhas e tão misterioso, ainda.
Possibilidades infinitas de vidas e dimensões, nos tirando das ilusões da visão limitada da carne, egos caindo por terra, orgulhos se desfazendo, sacerdotes em falência, verdades manipuladas caindo em descrença.  Estamos sendo enganados por milênios, mentes quadradas que pensam quadrado, não admitem a insignificância de nosso pequeno horizonte, tal qual a chama das paixões que sucumbem diante do oceano de amor, nos vemos  como formigas no caminho de elefantes.

Nos armamos contra nossos irmãos,  planejamos conquistas espaciais, como se de tudo fôssemos os proprietários, esquecendo-nos de que a inteligência suprema é feita de amor e perfeição, nos dando o oxigênio e o alimento, não oprimindo o ser selvagem que trucida seu próprio irmão em meio dum jardim florido, mas esperançando a luta da alma eterna no aprendizado terrestre.

Choramos ao ver entes partirem do corpo físico, ainda não percebemos que eles continuam a existir, conquanto de outra forma nos amando tb, no silêncio de um mundo que renegamos com todas as armas de nossa língua bélica e venenosa.

Mas surge a luz do amor, dita nas palavras de um ser que veio nos mostrar o caminho..."amai-vos uns aos outros", então alguns poucos percebem que o amor é a escada que eleva, fazendo-se então uma pequena falange que planta no deserto de descrença e da fé cega, talhada por sacerdotes e aproveitadores da ingenuidade da criatura que dorme em consciência.

Assim o motor da nave que nos eleva ao infinito está ligado, esperando passageiros para seguir a viagem de retorno ao lar, sem alarde, silencioso como o amanhecer dum dia  primaveril, nos dizendo no íntimo da criatura...amar, amar e amar.

Compre sua passagem para embarcar nessa nau...é da fonte do fraterno que a nave surgirá.

Desperte o amor em vc...acenda a sua luz.

Senhores passageiros...boa viagem!!!

Ghost



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Fado do Amor Eterno


                                                                                                


Assim voou a espuma, sobre a praia, a marejar
De lágrimas a branca areia, onde um dia
Um triste dia, dois seres sonharam amar

Da barca distante acena o lenço, lenço branco a oscilar
Inveja das andorinhas...todas em bando a voar
Enquanto parto sozinha, nesse barco, triste barco, pelo mar.

Pedir-te-ia uma carta, para meu consolo, ao chegar
Naquele país de silêncios, onde tua voz não irá
Mas entalho na lembrança tua imagem, ao luar.

Vou-me, cantando este fado, já de saudade doída
Pois deixar-te para trás e saber-te só nesta vida
Mata-me um pouco mais que a morte que me desgarrou
Rezarei a Deus que de nós tenha clemência
E nos recompense a ausência no mundo pra onde vou.

Nessa praia de brancas areias, temos o céu por penhor
De nos encontrarmos um dia, feliz dia, para aplacar a dor
Pois o fado que hoje ouves, melancólicas cordas soando
Acompanhará meu retorno, barca no mar ondulando
Para meu eterno querido, meu mar, meu fado, meu amor.

Bíndi

(Inspirado no amor de Ghost, a quem meu coração escolheu)
 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Depois de Um Tango!


(Texto inspirado em meu amor: Bindi)

Fico a lhe olhar fixamente, mas seu olhar se perde num disfarce sutil
Seguro suas mãos suadas, entre seus dedos coloco meu desejo
Nem os aplausos me tiram a concentração em sua sensualidade
Esse perfume de mulher que usas, cada dia mais me faz flutuar

Quase beijo seus lábios, numa coreografia inventada por um impulso
Ao que correspondes com um leve sorriso e um gentil baixar de olhos
Tremo ao lhe abraçar e sentir a suavidade macia de seu corpo quente
Deslizo minhas mãos  por  sua silhueta de violão

Então percebo que a música já terminou...
Rubro, a face vermelha de timidez,
Calo-me humilde ao seu comportamento de dama intocável
Acompanho-te silencioso entre os corredores que nos levam aos bastidores

Banho-me sem vontade de tirar seu cheiro de meu corpo
Visto-me e saio pelo corredor
Instintivamente voltando ao palco de nossa dança
Tão distante de mim, deparo-me com você à minha frente, lindamente vestida

Quase desfaleço ao sorriso que me ofertas, como se me procurando estivesses
Tão linda, olhar bandido, num vestido marcando a silhueta de uma deusa
Assalta-me então a paixão que não sei mais disfarçar
Ofereço-te o braço para seu apoio...me devolves um tango a dois..."só para nós dois"!

Sob olhares espantados,
Nada mais recordo
Lembro-me de quem fui
Mas agora estou perdido
No compasso de um antigo Tango, tão fulminante...como meu amor por você!

Ghost


domingo, 27 de julho de 2014

O Velho Pescador

Encontrei este conto de Mary Bartles Bray, e achei que merecia ser compartilhado com pessoas capazes de entender a sua mensagem.
Um grande abraço!
Bíndi


                                                                                                           Imagem:Gianni Strino - The Mariner




O Velho Pescador


Nossa casa ficava do outro lado da rua da entrada da clínica do Johns Hopkins Hospital, em Baltimore. Morávamos no andar de baixo e alugávamos os quartos do andar superior para os pacientes da clínica. Numa noite de verão enquanto eu preparava o jantar, alguém bateu na porta... Eu abri e vi um homem verdadeiramente horrível me olhando. "Ora, ele é pouco mais alto que meu menino de oito anos de idade", pensei enquanto olhava para o corpo murcho e encurvado. Mas a coisa mais terrível era o rosto dele - torto de inchaço, vermelho e áspero. No entanto, sua voz era agradável, ao me dizer: "Boa noite. Vim para ver se você tem um quarto para apenas uma noite. Eu vim da costa leste para um tratamento esta manhã, e não há ônibus até amanhã de manhã... "
Ele me disse que estava à procura desde o meio-dia, mas sem sucesso: ninguém parecia ter um quarto. "Eu acho que é o meu rosto... Eu sei que parece terrível, mas meu médico diz que com mais alguns tratamentos ..." 

Por um momento eu hesitei, mas suas próximas palavras me tocaram: "Eu poderia dormir nesta cadeira de balanço na varanda, meu ônibus sai de manhã cedo..." 
Eu disse a ele que iria conseguir-lhe uma cama, e para descansar na varanda. Entrei e terminei o jantar; quando estava pronto, eu perguntei ao velho se ele iria se juntar a nós. "Não, obrigado. Eu tenho o bastante", disse erguendo um saco de papel marrom. 
Quando terminei os pratos, fui para a varanda para conversar com ele alguns minutos. Não demorou muito tempo para ver que este velho homem tinha um coração enorme dentro daquele pequeno corpo. Ele me disse que pescava para sustentar sua filha, seus cinco netos, e o marido dela, que estava irremediavelmente desabilitado por uma lesão nas costas.
Ele não disse estas coisas em tom queixoso; na verdade, cada frase era prefaciada com um agradecimento a Deus, como por uma bênção. Estava grato por nenhuma dor ter acompanhado sua doença, que aparentemente era uma forma de câncer de pele. Ele agradeceu a Deus por dar-lhe forças para continuar. Na hora de dormir, nós colocamos uma cama no quarto das crianças para ele, e quando me levantei pela manhã, a roupa de cama estava cuidadosamente dobrada e o pequeno homem estava na varanda. Ele recusou o desjejum, mas antes de partir para seu ônibus, hesitante, como se estivesse pedindo um grande favor, ele disse: "Será que eu poderia por favor voltar e ficar aqui na próxima vez que eu vier para o tratamento? Eu não vou importuná-los, posso dormir bem em uma cadeira." Ele fez uma pausa e depois acrescentou: "Seus filhos me fizeram sentir em casa. Os adultos sentem-se incomodados pelo meu rosto, mas as crianças não parecem se importar." Eu disse que ele era bem-vindo para vir novamente. E em sua próxima viagem, ele chegou um pouco depois das sete da manhã. Como um presente, ele trouxe um peixe enorme e um pacote com as maiores ostras que eu já tinha visto. Ele disse que as tinha pegado naquela manhã antes de sair, para que estivessem boas e frescas. Eu sabia que o seu ônibus saía às 4:00 horas da madrugada, e me perguntei a hora que tinha de levantar-se, a fim de fazer isso por nós. 

Nos anos que vieram, ao ficar durante a noite com a gente, nunca houve uma vez em que ele não nos trouxesse peixe ou ostras, ou legumes de sua horta. Outras vezes, recebemos pacotes pelo correio, sempre por entrega especial; peixes e ostras embalados em uma caixa de tenros espinafres ou couve frescos, cada folha cuidadosamente lavada. Sabendo que ele devia andar três quilômetros até o correio, e quão pouco dinheiro ele tinha, fazia os presentes duplamente preciosos. Quando recebi essas pequenas lembranças, muitas vezes eu pensei em um comentário que o nosso vizinho de porta havia feito depois que ele saiu de nossa casa naquela primeira manhã. "Será que você abrigou esse homem horroroso ontem à noite? Eu mandei-o embora! Você pode perder hóspedes, aceitando tais pessoas!" Talvez a gente perdeu hóspedes uma ou duas vezes. Mas oh! Se ao menos eles o tivessem conhecido, talvez suas doenças teriam sido mais fáceis de suportar. Eu sei que a nossa família sempre será grata por tê-lo conhecido; dele nós aprendemos o que era aceitar o mau momento sem queixa e o bom com gratidão a Deus. 

Recentemente eu estava visitando uma amiga, que tem uma estufa, e quando ela me mostrou suas flores, chegamos à mais bela de todas, um crisântemo dourado, repleto de pétalas. Mas para minha grande surpresa, ele estava crescendo em um velho e amassado balde enferrujado. Eu pensei comigo mesma: "Se fosse minha esta planta, eu colocá-la-ia no recipiente mais lindo que eu tivesse!" Minha amiga me fez mudar de idéia. "Eu estava com poucos vasos", explicou ela, "e sabia o quão bonita esta flor seria, então pensei que não faria mal começar neste velho balde. É só por um tempo, até que eu possa plantá-la definitivamente no jardim."

Ela deve ter se perguntado por que eu ria deliciada, mas eu estava apenas imaginando uma cena no céu: "Aqui está uma especialmente bonita" Deus poderia ter dito quando se encaminhou a ele a alma do velho e doce pescador. "Ele não vai se importar, se começar neste pequeno corpo." 


Tudo isto aconteceu há muito tempo - e agora, no jardim de Deus, quão alto deve esta linda alma ter se elevado.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Biyi



E num súbito, desperto em consciência, e me vejo estranho numa dimensão de ilusões e egos: o indivíduo é tudo aqui, a luz é esquecida...


Vejo que está tudo aos pedaços, desorganizado aparentemente, vou andando, procurando o lar...que lar?!

Então sou perseguido, sofro preconceitos e ataques.
As balas surgem de todos os lados, não entendo, mas preciso me esconder, de mim mesmo restou só o silêncio, numa casa vazia e cercada  por formas da ilusão, que tentam me acorrentar.

Só busco sossego, quero voltar...como?! estou preso.

Me isolo, buscando silêncio,  é um erro...deveria agir como todos que dormem!

Quem são essas estranhas criaturas?! Vindos da mesma fonte...esqueceram, esqueceram...

Correr não funciona, esconder-se não resolve.
Então me volto para dentro de mim, então sei que sou milhões. Isolo egos e balas, me torno apenas consciência, blindada, mas um pássaro numa gaiola...batendo asas!!!

Ainda não estou pronto...preciso  aprender mais!!!

Voar é a meta...horizontes sem fim nos esperam...ao tempo do despertar!

Cansado...preciso dormir.

Ghost

*Biyi = nascido aqui, agora. (Yorubá)


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