sexta-feira, 10 de junho de 2016

Homônimos



Homônimos

Tudo é luz, sou o todo
Me vejo assim, sinto a divindade 
O futuro já foi transposto
O passado faz parte de mim e do que sou

Transpus a barreira do tempo, me projetei ao infinito
Me sinto dividido, mas sou o UM
Há duas faces em minhas lembranças
Uma é agora, a outra é a quem sinto que sou

Se me olharem não me vêem
Mas sou o que querem perceber
Então me procuram, estou aqui
Então não podem me ver, estou aqui

Estou aqui, estou lá, em toda parte...sou eu
Quando a onda vem, eu mudo de lugar
Eu sou o mesmo, me sinto assim, em várias faces
Me observo, me suicido, renasço, imortal sem morrer ou nascer

Percebo sombras em mim, assassino que trucida semelhantes
Impiedoso marginal, chefe de falanges malignas, sanguinário, violento
Verdugo e animal, vampiro sem passado, volto ao verme
Sumo de onde estou, imóvel, nascido da terra, cão feroz

Vejo um homem, a mesma face numa mulher, vi o universo ser feito
Pressinto sua transmutação
Sei que isso passará, mas ainda nem comecei
Me vejo assim, até onde posso projetar a consciência

Agora sou anjo, do mesmo verme nasceu a luz
Sou imenso, sou o amor, sou a paz, o sorriso e a bondade
Me excomungo com as palavras que seduziram nações
Sou o pacificador, porém o mesmo trucidador de outrora

Agora sou o homônimo de mim, estou aqui
Me pergunto então...quem sou?!

Ghost


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Descendência






Descendência

Só um momento, e já deixarei a sagrada nave
antes que a santa missa inicie seus ritos
Sim, eu já estive antes num local sagrado
Onde vi os fumos de oferendas se elevarem ao céu
e a glória de um irmão ser exaltada por Deus.
Muito longe já se vão as eras
em que este mundo era apenas o óvulo da vida.
Estávamos destinados a gerar os novos homens
que haveriam de lavrar os campos e construir cidades de paz
Esta seria a herança de meu irmão aos seus filhos bem-amados.
Porém, quem prevaleceu foi o Outro
O Malquerido, o Indesejado.
Ah...tanto tempo se foi e ainda sou ferido em minha mente
Pelas lanças pontiagudas de meu orgulho bastardo.
Hoje eu bem sei que a oferenda enaltecida
Não era apenas da ovelha a carne,
senão a própria carne de meu irmão.
Pois foi queimado por ele no altar do sacrifício
não o animal de seu rebanho, mas seu animal interior.
A fumaça subindo aos céus agradou o Criador
porque era feita do lento forjar de uma alma
queimando dentro de si a bestialidade dos instintos,
a ignorância, a pequenez, a agressividade, o ciúme e a gula
Ele imolou em si a fera e fez nascer o humano
E para ele a face de Deus voltou-se alegremente
Pois Seu filho amado compreendera o sacrifício exigido.
Eu, caí.
Mas foi minha a descendência que seguiu-se então
chegando aos dias de hoje, ao número de bilhões.
Quem seriam eles se fossem filhos de meu irmão?
Se não herdassem de mim a semente amarga da selvageria?
Consigo olhá-los com carinho, pois compreendo fundamente a sua imperfeição.
Hei de ajudá-los a reerguer os templos caídos de almas adormecidas
E passo a passo, em suas perturbadas vidas,
amansarem as feras de todas as paixões indignas para que a alma aflore.
Prometo esforçar-me para auxiliá-los, meus filhos, a burilar as rochas e acordar as pedras.
Eu, caí.
Eu, Caim.

Bíndi



segunda-feira, 2 de maio de 2016

Desperta, ó tu que dormes!


O sol brilha aos seus olhos, mas você não se importa em saber como essa luz é gerada por bilhões de anos. Você corre daqui pra lá, de lá pra cá, se dedica...corre na mesma direção que todos correm, sem se dar conta do porquê e pra onde está indo, simplesmente corre porque lhe mandaram correr do modo que todos correm e pra mesma direção. Consome, produz, paga, se diverte, compra, trabalha dentro dum sistema que fez de você um androide, mas você não se dá conta, até que vem a depressão, depois dela a pergunta...e Deus?! 

 Buscas religiões que também te impõem normas de comportamento e regras de entendimento, sem justificar de onde provém tudo isso. Sua individualidade se sente perdida, buscando respostas sem achá-las...a única coisa que lhe dá prazer é brincar com as tecnologias mundanas, celulares, jogos, diversão, bebidas, sexo, músicas despedaçadas de qualquer sentido edificante e instrutivo para o aprimoramento de sua consciência... 

 Então os vícios: pois os amigos bebem, pois os amigos se entorpecem, eles também andam com a Bíblia na mão, oram, vão aos cultos, aprendem que Deus tudo perdoa...seguem bebendo, seguem numa vida mundana, seguem pregando passagens bíblicas, sem saber o significado de como surgimos e para onde deveríamos estar direcionando nossos esforços. 

 As conversas inúteis e viciadas nada acrescentam na consciência daquele que está na busca por descobrir além do que lhe é mostrado. 

 Sim, você está dentro dum sistema de "poder" que usa o dinheiro como a ferramenta que nos mantém distraídos do objetivo da vida terrestre. Essa ferramenta só pode ser adquirida através do seus estudos(que na verdade é uma lavagem cerebral, em que te são impostos os conhecimentos necessários para que você seja útil no "sistema"), do seu trabalho escravo, lhe ocupando a totalidade do seu tempo, lhe dispensando apenas quando seu corpo já está saturado e cansado, não lhe deixando disposição para viver ou buscar a consciência cósmica e o verdadeiro conhecimento. 

 Não sejais tolo, enfrenta o que é de Cesar com a sabedoria dos que buscam o aprendizado na escola da vida densa, mas não se deixe escravizar pelos vícios chipados nas consciências adormecidas, desperte agora...observe o milagre do amanhecer, das cores, do oxigênio, do aparelho físico em que habitas, se lembre dos sonhos...você existe além do corpo, além do seu dia-a-dia. 

 Não vá embora de você, pois és a única saída, o despertar é individual...se você sucumbir no sistema, a samsara irá girar sem parar, lhe transferindo para mundos semelhantes aos níveis vibracionais que você se situe. És muito mais do que ao longo dos milênios implantaram em sua consciência, a própria Terra é bem maior do que a percebemos, há camadas que nossos olhos não percebem, mas são compostas de um céu e um chão firme. As inquisições extinguiram a coragem da busca, a escravidão continua, mas agora escravizam a sua vontade, prenderam a sua consciência...mas és tão grande quanto o que Jesus nos ensinou...vós sois deuses...desperta, ó tu que dormes! 

 Ghost


domingo, 17 de abril de 2016

O Vitorioso




O Vitorioso

Nasci para fazer grandes coisas...buscar a vitória em todos os caminhos
Me preparei para ser grande nos esportes, nos negócios, nas aparências
Esculpi meu corpo, agucei a mente, viajei pelo mundo para ampliar meus horizontes
Fiz o que o mundo esperava de mim, e tornei-me um vencedor

Cada hora do dia ocupado estava com coisas de infinita relevância
A família que formei, para ser grande também em descendência
Em vão no fim dos dias me esperava, pois eu tinha
Ainda muito o que fazer: contratos me aguardavam,
Importantes homens de negócio sentados em imponentes poltronas
Amigos em impecáveis roupas a me esperar em impecáveis restaurantes

Constantemente me diziam: sempre haverá somente um vencedor.
E no final do extenuante expediente
Sozinho me via então nos limites do meu quarto
E frente ao espelho indagador não conhecia
Aquele vulto a me olhar, pois não parecia
Em nada com um vencedor...

Olhos fundos e vazios, mente distante
sem qualquer pensamento nobre a sobrevir
pálido espectro humano, casca sociável
sem sentir a própria alma, já imersa
por anos de inconsciente abandono

Eu tudo ganhei, e tudo perdi...
Ganhei no mundo, perdi na alma...
Solitária pensei ser a estrada do vitorioso,
Cheia das glórias de deixar para trás os demais,
Quando na verdade a maior glória
É compartilhar com eles as estradas,
Aprendendo juntos, convivendo,
Não subindo em seus ombros, nem puxando seu tapete,
Mas olhando-os nos olhos, frente a frente, nivelados pela fraternidade...


Bíndi

Crédito da imagem: Goodfon.su

quarta-feira, 30 de março de 2016

Regresso



Sim, eu estava enganado em lhe dizer que iria demorar
Pensei poder viver sem você, mas como poderia viver sem parte de mim?!

Mais uma vez errado, sem suportar o tédio da vida cinza sem você
Enganado pelo próprio ego, achava que poderia suportar um longo tempo

A saudade me amassou o coração, como uma tonelada caindo numa formiguinha

Foi assim que corri para a mesma estação em que vi você partir
Os segundos não passavam, eu queria descer do trem e correr ao teu encontro

Ainda faltavam muitas paradas, minha esperança era que em você ainda vivesse o mesmo amor

Então o trem foi parando, vi você sentada num banco...olhava para cada pessoa que descia do trem, mas não me viu descer e parar atrás de você

Eu não sabia o que fazer, se sorria, se chorava, se lhe chamava o nome...
Então fiquei ali parado, apenas olhando pra você, como se fosse um sonho em que eu não desejasse despertar

Você se voltou, como quem sentisse minha presença...

"Quando você precisar dizer alguma coisa para alguém, e mesmo sem nada poder falar, receber um abraço e um beijo, essa é a pessoa que Deus enviou para ser o seu par, pela eternidade!".

Assim estamos vivendo nossos dias, unidos por um amor que não cabe em palavras, que só pode ser entendido nos olhares, nos gestos, nos carinhos, na comunhão...precisaremos da eternidade, nada mais...

Ghost


segunda-feira, 14 de março de 2016

Armadilhas do Tempo



O teu amor é minha voz trêmula tentando te dizer adeus, e minhas mãos inertes não querendo te acenar. O teu amor estava na estátua do Senhor morto, nas roliças pombas das praças, estava na medalhinha do cordão dourado em teu peito batendo em meu rosto enquanto me amavas. Estava nos olhos com que me miravas nesse momento, cujo olhar parecia vir de um lugar fora do tempo e espaço.

Mas ah...estava mais ainda em minha alma, tão entranhado em minha alma que ela arranhou-se toda nos espinhos da saudade que me atravessaram antes mesmo de minha partida. E o trem chegou, tão veloz, tão veloz...e me levou de ti numa sofreguidão indiferente que não deu por conta do meu espectro parado ainda lá, na estação a te olhar. Ficou para trás meu desejo de dias contigo, te acompanhando pelas escadarias em que subimos nós e desceste só.

Teu amor foi tão grande que não permitiu que eu te visse partir, pois sabias que meu coração congelaria no momento em que me desses o último olhar. Preferiste tu ser aquele deixado para trás, acenando e correndo atrás do comboio que me levava, chorando, a uma vida sem ti.

Mas eu sei que o silêncio é a pausa entre duas palavras de carinho, e a saudade é a pegada que o amor deixou: um dia andarei sobre meus próprios passos, refazendo o caminho que me afastou de ti, e encontrarei ainda a sombra de tua imagem na estação, impregnada como almíscar nas rendas do tempo. E nesse dia, do fundo do silêncio, eu ouvirei a tua voz a me chamar, e cada rosto que cruzar por mim verá a luz daquela que vai reencontrar seu grande amor, pra nunca mais, pra nunca mais, se separar.


Do teu amor, Bíndi!


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