Somos um casal que se ama há muitas vidas, se reencontrou nesta, e vai se amar eternamente...
Mas se você não acredita em alma, não crê em muitas vidas, nem aceita a idéia de eternidade, ainda assim acredite no amor: somos a prova de que ele existe, e existirá enquanto um coração humano bater sobre a face deste mundo...pois o amor é, definitivamente, o sal da terra.
Bíndi e Ghost
Khaled pensava e pensava...quantos amigos perdidos, esquecidos na poeira dos tempos...Tanta gente que palmilhou os caminhos de sua vida, e agora seguem rumos paralelos, longínquos, amigos queridos cujas fotos amareleceram numa caixa que por fim foi jogada ao lixo; colegas de trabalho que lhe alcançaram a mão em tempos difíceis e que agora nem mesmo um telefonema natalino dele recebem...
Sentia-se culpado por não conseguir continuar contactando a todos, nem ao menos mantê-los carinhosamente presentes em sua memória, de onde iam-se escapando aos poucos, nomes, rostos, enfim...somente em alguns momentos um som, uma palavra ou uma imagem traziam à tona a recordação de uma voz ou de um rosto submerso no lago do passado.
E havia também aqueles falsos amigos pedinchões, que só o procuravam quando em dificuldades e o esqueciam nas bem aventuranças, e que o faziam sentir-se apenas um velho bote salva-vidas...quanta assimetria, quanta falta de maestria, que aparente falta de generosidade de sua parte, em ambos os casos...
E então seu Mestre Interior falou-lhe um dia, em sonhos: "Khaled, o fluxo da vida tem marés altas e baixas, e cada uma traz e leva de volta para o mar. Lembra-te que os amigos que estiveram ao teu lado eram teus parceiros numa determinada etapa da vida, que seguiu seu rumo para todos. Mudaram as estradas, cada um precisou partir para um aprendizado diferente. Prender-te a eles significaria fechar teu coração aos novos que viriam, trazendo-te novas lições, novos percursos, guiando-te a outras estradas, e impedindo a eles de fazer o mesmo. Não te esqueças também de que de quando em vez terás de acolher como companheira a solidão...
Da mesma forma, os infelizes que te procuram apenas para pedir, são aqueles que te dão a oportunidade de retribuir à vida todo o bem que antigos amigos te fizeram, para que tua mão esquerda dê o que tua mão direita recebeu. Assim é o fluxo na maré da vida...moeda corrente de fraternidade, passando de mão em mão, sem olhar a quem, consanguíneos ou desconhecidos. Não te apegues a um ou outro apenas, pois a família humana é tão grande...! Muitos passarão por tua vida e seguirão adiante, deixando rastros apenas na lembrança, mas alguns criarão laços afins que os unirão em todas as vidas, na eternidade das almas. Porém a cada um dê o melhor de ti, mesmo que os encontre apenas por um minuto, pois não se mede o tempo do coração nem o valor da bondade; aquele a quem doaste apenas o teu sorriso pode ser o que te agradeça em preces por fazer daquele um dia melhor."
Então o grande Arquiteto entregou ao Construtor um desenho divino, que se fosse construído com esmero, com a colaboração da força, amor e tenacidade deste, resultaria na mais bela obra do universo.
Para realizar tal projeto, ao Construtor era dado montar andaimes, tapumes e fôrmas que o auxiliariam, peças feitas de tábuas simples que outra função não tinham que a de servirem de apoio enquanto exercitava o Construtor a consecução de sua verdadeira obra.
Porém, fato muito estranho se deu, pois o Construtor, a sapatear em seus andaimes na sua atividade diária, achou por bem ir ficando por ali, onde poderia montar uma moradia fácil, em contrapartida da edificação do desenho do Arquiteto, que às vezes o enfastiava por ser trabalhosa demais e exigir paciência e desvelo; afinal, seguidamente caíam tijolos mal alinhados, a massa que deveria unir tijolo a tijolo era fraca e tinha que ser refeita, enfim, a coisa toda era obra de muito mourejar.
Assim, o andaime frágil e limitado passou a ser a finalidade do Construtor, que nele foi juntando apetrechos, utensílios e móveis, decorando conforme seus pendores, até que o tal ficasse ataviado e mobiliado, constituindo-se na sua moradia oficial, então.
E pela vizinhança toda, por toda a cidade, outros Construtores assim procediam, desistindo de erigir o prédio do desenho original, cada qual em fase diferente...alguns, mais empenhados, levantavam paredes inteiras, outros impacientavam-se já nos alicerces, alguns, muito aplicados, iam até o telhado mas, ao olharem para o chão, como que atraídos pela facilidade de antes, pulavam de volta ao seu andaime, rudimentar e grosseiro, porém atrativamente conhecido.
Assim, por entre aqueles andaimes balouçantes, podíamos entrever belas obras inacabadas, tristemente aguardando um término, e Construtores muito ciosos de enfeitar seus andaimes com toda quinquilharia que ajuntavam, comparando o seu com o do vizinho, trabalhando nisto todos os dias, às vezes praticando delitos, tudo para ter o melhor andaime possível. Alguns, de tão pesados pela carga que lhe foi disposta em cima, despencavam com o Construtor e sua família, afinal,vamos convir, o madeirame frágil foi erigido para ser instrumento temporário, e não moradia definitiva. (Que ignorância dessa criatura, pensamos nós...)
Certa vez, um Construtor andou para longe, para bem longe da aldeiazinha em que morava, e pensando estar perdido, avistou com assombro uma Obra praticamente acabada. A primeira coisa, chocante para a pobre alma, e que lhe chamou a atenção, foi a ausência de andaimes: o prédio surgia inteiro, alvo e de linhas simples, com o sol refulgindo dourado em suas formas divinas. Ele já tinha ouvido falar de tais monumentos, idolatrados por alguns como algo que havia descido dos céus. Mas segundo se dizia entre certos grupos, havia sido obra de um Construtor da própria aldeia, o qual contava para quem quisesse ouvir que havia iniciado do mesmo ponto a partir do qual todos iniciavam: subindo em andaimes e com o auxílio destes, colocando tijolo a tijolo, com vontade, atenção e dedicação absolutos. Com muito esforço terminara a obra, e assim como havia montado os andaimes, desmontou-os um a um, peça por peça, pacientemente, para deixar então a Obra verdadeira à mostra, em toda a sua beleza: as grandes janelas sempre abertas deixavam ver a claridade maravilhosa que irradiava através das claraboias do teto, por onde o prédio recebia a luz direto das estrelas. E era assim que o grande Arquiteto havia programado para ser.
A pobre criatura, abismada com a história que a ele mais parecia um conto de fadas, retornou por fim à sua aldeia. Todavia, percebeu quão toscas eram as edificações de todos em comparação com aquela moradia excepcional. Pareceu a ele insano erigir a vida sobre algo tão frágil e deixar de lado a sólida obra que duraria para sempre. Mas ao chegar em frente à sua moradia, a esposa o chamou para decidir de que cor pintariam os tapumes que já descascavam da chuva, e ele esqueceu por completo do que havia presenciado. Outro dia, talvez.
Ficar olhando as formiguinhas carregarem suas folhas
O medo do escuro em seu quarto
A certeza inconsciente de que você era especial
Os amiguinhos invisíveis que brincavam com você
O gosto de cada pãozinho com manteiga
A alegria no sorriso, ao ganhar um brinquedinho
Como era gostoso cada amanhecer
O sol, a brisa, o barulho da chuva
Aquele cãozinho que brincava com você
Seu primeiro dia de ir para a escola
A vida fluía como um orvalho
A resignação com o que tínhamos, longe da ganância que nos ensinaram
O dedinho cortado sarado com o curativo abençoado
...mas crescemos, nos fizeram esquecer como tudo é tão simples, ao mesmo tempo tão belo, exaltaram os perigos, surgiram bandidos perigosos, nos vimos num mundo monstruoso e letal...
Então, só por hoje, vamos comemorar a saudade dos bons e dos nem tão bons momentos que tivemos, vamos comemorar o simples fato de existirmos e merecermos esse ar, os alimentos dados pela natureza, por nossa inteligência, por nossos sentimentos, por nossas buscas...
Olhemos ao nosso redor: há tantos que não tiveram a oportunidade de serem crianças, ou mesmo aqueles que não guardam doces recordações da infância...vamos celebrar o hoje...vamos vibrar no presente, na esperança de atrair paz no amanhã?!...vamos plantar uma semente de simplicidade no fato de existir, como fazíamos na infância...
Trouxemos conosco as rosas brancas, vermelhas, amarelas...são rosas que nasceram com os espinhos que por fim as protegem dos perigos que sua beleza pode atrair...aprendamos pelo amor, então...não esperemos a lição da aprendizagem pela dor, para então nosso sorriso se transfigurar no daquelas crianças que fomos um dia!
Acordamos sorrindo, depois de nos ferir com os espinhos da vida, aprendendo que um "bom dia, um abraço, um beijo"...já é um milagre do universo!
O tempo para nós dois, não existe, os anos não passam, pois não os temos...apenas vivemos o nosso hoje, que é o nosso tempo eterno!
Até breve, pois como duas crianças sapecas...vamos agora descansar em nosso bercinho de paz, mas sem jamais nos distanciarmos dos nossos amigos invisíveis, porém, reais para nós!
Toda a sua vida havia sido marcada pela sede: de conhecimento, de respostas, de conhecer-se para apreender o mundo complexo de fora, mas sobretudo por um profundo anelo por ser melhor do que era.
Ao seu redor ele via a saciedade dos sentidos, da inteligência, via partidas e retornos, percebia os trens chegando, para os outros, lotados de conhecidos que traziam abraços e fotos de lugares distantes; mas trem algum chegou para ele. Via-se pequeno e ordinário aguardando na estação pelo vagão que traria finalmente a experiência suprema, a aurora mística, a angelitude em vida...
A mochila nas costas, por mais leve que quisesse levar, pesava sempre. Era uma longa jornada tentando desfazer-se de falhas e defeitos, arredondando-se a cada baque da vida, como um seixo que rola agitado por um rio frenético e ao bater no fundo e nas margens perde algumas partículas por vez. Mas era tão pouco para quem almejava tanto...Desejava um futuro não muito distante distribuindo uma luz sem lacunas de sombra, uma bondade sem mácula, uma fraternidade sem cobranças.
Mas entre todas as falhas que ainda tinha por burilar, uma lhe era a mais dolorida: a falta de uma profunda empatia pelo semelhante, essa privação de sentir vontade de chorar quando outro chora, de rir ao perceber o riso, de cantar junto com quem canta – o pior dos defeitos, a suprema carência, em sua forma de ver, e que por mais que se esforçasse não lograva sentir. Queria a perfeição agora, como a criança que sabe do presente escondido há meses no armário não quer esperar pelo natal. Sentia-se pequeno demais enquanto não fosse extremamente grande, sujo demais enquanto não estivesse imaculadamente limpo. Existir como um simples ser humano cheio de falhas doía-lhe.
Foi numa de suas andanças entre as ruelas da parte marginalizada da cidade, tentando sentir a compaixão pungente que sempre buscara, que viu a moça baleada sobre uma poça de sangue. Ao seu lado, pessoas chorosas e desesperadas, e um rapaz que inclinado sobre ela tentava desesperadamente lhe prestar os primeiros socorros e impedir que a vida escoasse com cada uma das gotas que avermelhavam o chão batido. “Preciso de ajuda”, ele falou olhando ao redor em desespero; “Ela tem uma artéria rompida, necessito que alguém faça compressas sobre a hemorragia enquanto eu a reanimo ou ela morrerá...” Com um esgar de horror, as compungidas pessoas que o circundavam instintivamente se afastaram...Não conseguiam cogitar em tocar aquelas carnes dilaceradas e pulsantes, entreolhando-se chocados.
Mas ele agachou-se, pegou a toalha que o socorrista apontava e pressionou o local sanguinolento sem problemas. Assim, ao lado dela, percorreu o caminho todo até o hospital. Quando a maca desapareceu no longo corredor batido pelas cruas luzes brancas, virou as costas para ir, voltando sobre os próprios passos. Quase não notou o rapaz a quem ajudara, que ao passar por ele, disse baixinho: “se não fosse sua serenidade e presença de espírito, talvez minha irmã estivesse morta...Obrigado.”