quinta-feira, 18 de junho de 2015

Traumas



Traumas

Foi numa terça-feira que ele chegou, iluminando um dia chuvoso e frio de inverno. Esperei no hospital, abobalhado como todo pai, suando frio enquanto a enfermeira sorridente não chegou com a notícia – era um menino, saudável e forte...


Dali por diante, minha vida se alterou completamente: noites mal dormidas, mas dias de alegria, fraldas sujas, febres e arranhões, e olhos lavados de lágrimas com os gorjeios, as travessuras, os sorrisos...durante toda sua infância, meu filho foi o passarinho que enfeitou a janela pela qual eu espiava para a vida...


Mas algo mudou, no entanto, e acho que eu não percebi...eu trabalhava demais, me preocupava demais, fazia tudo demais, para notar...não percebi as olheiras comendo aos poucos o olhar brilhante, a palidez e a magreza por baixo das roupas largas de adolescente: ser magro era a moda do momento, eu pensava...e depois estuda demais, faz esportes, está sempre ocupado, sempre fora de casa, deve estar com amigos...Amigos que eu nunca me preocupei em saber quem eram, de onde vieram, o que faziam; meu filho passou a ter uma vida dupla, da qual eu me afastei quase que sem perceber, achando normal deixar de ser o herói e amigo pra ser somente o provedor: são coisas da vida, os filhos crescem, separam-se da gente, adolescer é assim, é normal...eu ensinei tudo a ele, falei do certo e errado,com certeza ele deve saber se virar.


Eu queria que ele fosse feliz...prá que tocar em assuntos desagradáveis, pra que comentar o olhar triste que eu via por cima da mesa de jantar, perdido, parado, vazio...porque tumultuar a vidinha pacata com perguntas profundas, que certamente trariam respostas amarguradas, mudar a rotina trilhada todos os dias... Eu procurava alegrá-lo com meu jeito animado e brincalhão, lhe concedia tudo o que pedia, tentava encher-lhe a vida com meus presentes, sempre dizia sim a tudo, porque assim eu teria garantido o seu amor, sem conflitos, nem traumas.


Onde eu errei, se só queria seu bem, se lhe dei tudo...? Por que essa notícia que me chega assim, no meio da noite, sorrateira, sórdida, fria como um corpo coberto de jornais...? Talvez porque eu nunca quis conhecer o lado sombrio daquele que veio de mim, o fardo humano que todos carregam...pelo medo de encontrar no fundo de seus olhos os mesmos medos que os meus, os mesmos traumas, os mesmos desejos desfeitos...me perdoe, meu filho, por não me reconhecer em você, e por não ter a chance de conhecer o homem que você seria um dia; por fantasiar a vida, como um artista no picadeiro, e temer entrar nos bastidores e despir a roupa colorida que eu usava na sua frente. Acho que hoje sei que você preferiria que eu às vezes vestisse meu casaquinho surrado, minhas bermudas furadas...e me sentasse ao seu lado no degrau da porta, sendo apenas um velho pai meio chato, meio ignorante, mas me mostrando igual a você em suas fraquezas e medos...


Onde estiver agora, filho meu, ouça a voz silenciosa do teu pai, que por toda a vida sempre quis te dizer, apenas...Eu Te Amo...!



Bíndi


Imagem: Paren D.Z. Klyuchi Art
(*Este é um texto de ficção)


29 comentários:

Elisabete disse...

Fiquei comovida! Está muito bem escrito e espelha a realidade de muitos relacionamentos pais/filhos estragados pela competição do dia a dia.
Bjs

Guaraciaba Perides disse...

Dolorosa realidade de muitos relacionamentos familiares onde todos sofrem, pais e filhos perdem a perspectiva de um amor que existe e se perde no vazio.
um abraço

Carmen Lúcia.Prazer de Escrever disse...

Oi amigos,uma realidade que acontece com muitas famílias.
Lindo texto.
Bjs amigos Bindi e Ghost

Felisberto N. Junior disse...

Olá,Bíndi & Ghost...Parabéns pelo escrito e pela reflexão...todos os pais querem, sempre, o melhor para os seus filhos,porém, a dinamicidade da vida atual deixa, de fato, um período de tempo menor dos pais para que estes estejam com os filhos e com essa ausência de presença física freqüente( ou mesmo verbal) ,não conseguimos perceber as transformações que "eles" estão passando, ou, como "escrito", acreditamos ser modismo, uma fase passageira etc e tal...o que , por vezes, nos coloca frente a frente com dolorosas revelações . É necessário saber administrar e valorizarmos nossas demonstrações de amor, afeto e de admiração , com um diálogo franco e honesto sempre quando necessário, para que o "imponderável" não causem traumas , por termos percebido/demonstrado tarde demais, o nosso " eu te amo"...
Agradeço pelo carinho, feliz final de semana,belos dias,Beijos &Abraços!

lua singular disse...

Oi amigos,
A gente a gente faz tudo errado para agradar os filhos e depois eles fazem tudo errado para nos fazer sofrer eternamente.
Assim é a vida...
Triste e verdadeiro demais
Beijos no coração

Donetzka Cercck Lavrak Alvarez disse...

Cheguei ao pranto com essa história triste,mas de amor e tão real.

Pais e mães sofrem pensando não terem feito o melhor,mas nós fazemos o que pensamos ser melhor! Isso importa.

Temos que nos livrar dessa culpa,nos perdoar,somos humanos.

E viver acreditando que Deus nos dá a cruz com o peso que podemos carregar.

Como o vídeo que comentou no meu blog.

Fiquei feliz com a visita,pois há muito não os lia.

Estive ausente por uns meses devido a cirurgias que meu marido fez,mas que se recupera,graças a Deus.

Feliz final de sábado e domingo com paz e amor

Beijos sabor carinho

Donetzka

Blog Magia de Donetzka

ONG ALERTA disse...

Emocionante.... Beijo Lisette.

Rita Sperchi disse...

Bom dia de domingo, vim te visitar e deixar
um salmo pra vc, tenha um bom começo de semana

Nem olhos viram ,nem ouvidos ouviram ,nem jamais chegou ao entendimento humano ,o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.
( I Coríntios 2:7-9)

Bjuss com carinho

└──●► *Rita!!

✿ chica disse...

Puxa, fiquei emocionada aqui! Que lindo e veio do fundo do coração! abração,chica

ReltiH disse...

MUY CONMOVEDOR TU TEXTO.
ABRAZOS

Vera Lúcia disse...


Um conto muito bem escrito e de um teor tristonho, embora represente a realidade do que ocorre em muitas famílias. Ser pai é uma dádiva, mas é também um compromisso. Acredito que somente através do companheirismo, atenção e imposição de limites um filho encontra seu rumo na vida. O amor de um pai se revela através de tais atitudes, que proporcionam segurança aos filhos. No caso, este pai acovardou-se, pois não desejava ver em seu filho o reflexo daquilo que viveu. Mais um motivo para que ele tivesse buscado conhecer o âmago do filho para poder ajudá-lo em seus conflitos.
Tive um cunhado (já falecido) que deu de tudo ao filho, sem contrariar quaisquer de suas pretensões. O filho perdeu-se nas drogas e chegou até a tentar matar o pai. Um quadro muito triste.

Que o inverno seja portador de grandes alegrias para vocês.

Beijos.

Arco-Íris de Frida disse...

Me emocionei... como sempre com tudo que vcs escrevem... porem hj estou mais triste e o texto me tocou mais...

Beijos...

Helena Medeiros Helena disse...

Ghost, que belo o teu poema "Anjo"! Doce e lírico como vejo o teu bondoso coração!
Bíndi, soubeste bem delinear o sentimento/emoção de um pai que recebe com tanto amor o filho desejado, mas que se perde pelo caminho tentando acertar com bons propósitos, mas errando nas atitudes. Tão comum este desajuste, este desencontro, onde as gerações se perdem nos equívocos muitas vezes indefensáveis. Vem a culpa, vem o trauma, o arrependimento e a desilusão consigo mesmo. Vai doer muito na alma, mas vai ser no caminho trilhado que se encontrará justificativas e perdões. O que não se pode é perpetuar as próprias culpas, pois como seres humanos, erramos tentando acertar.
Uma reflexão profunda, atual, que deve servir de exemplo para muitos pais. Parabéns pela publicação.
Para os dois, meus amigos queridos, estrelas e sorrisos sempre a enfeitar esse amor tão lindo, essa relação tão gratificante de se ver, de partilhar. Que sigam pelos caminhos iluminados com esse amor tão bonito, onde sempre ficam rastros luminosos de bem-querer.
Meu carinho no agradecimento pelas visitas tão honrosas e gratificantes lá no meu cantinho,
Helena

Lu Nogfer disse...

Infelizmente há muitos pais que ainda preferem fechar os olhos para nao verem o que de fato esta acontecendo com o filho. Ignorar seria fácil demais, mas o final corre o risco de uma realidade fria e cruel numa perda irreparável como a da historia.

Uma historia triste mas um conto ótimo e muito bem escrito. Parabéns

Beijos ao lindo casal de amigos e uma ótima semaninha.

Brisa Petala disse...

OLÁ AMIGOS
Muito escrito esse conto. Vc me fez chorar.A interacção entre filhos é de tal maneira forte que quando um sofre, todos sofrem. Quando um está mal todos os outros ficam mal. Quando um não se sente bem os outros também já não ficam bem.
E é assim que são as famílias. Uma semana abeançoada para vcs. Um beijinho.

Jossara Bes disse...

Quantas pessoas devem "se ver" neste texto, pois é o retrato real de muitos pais de adolescentes. Triste retrato!
Tenham uma linda semana!
Beijo carinhoso!

Clau disse...

Olá Ghost e Bíndi,
O texto mesmo sendo uma ficção,
serve de alerta...
Muitos pais, para compensarem suas auências,
não enxergam o próprio filho.
Tornam-se permissivos para ganharem aceitação, e
com isso não exercem o papel que lhes cabem.
Em muitos casos, perdem literalmente o filho.
Beijos!

O Sibarita disse...

Pois é! Se é ficcional ou não, não importa, o que importa mesmo é o realismo que se confunde com o dia a dia entre pais e filhos.

Muito do porreta!

Feliz São João!

O Sibarita

Nal Pontes disse...

Triste história infelizmente essa é a realidade de muitas famílias.
Desejo um abraço e uma tarde linda. Bjs

Bandys disse...

Oláaaaa,

Um texto de ficção bem real em muitos lares.
Eu penso que tempo é amor e o amor que voce da
aos pais, filhos amigos, colegas de trabalho tem que ser
puro, total e gratuito. Para que não tenhamos esses vazios
na alma.

beijos, muita luz

Nossa alma deve ser preenchida com amor
que correra pelas veias bombeando o nosso coração.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, cada vez é mais difícil manter um bom relacionamento entres pais e filhos, aparente facilidade de vida, causa incompreensão dos filhos para com os pais.
AG

Carmen Lúcia.Prazer de Escrever disse...

Olá amigos Bindi e Ghost,passando para desejar a vocês um ótimo final de semana.
Bjs-Carmen Lúcia.

CÉU disse...

Olá, meus queridos amigos!

Tudo bem com vocês? Por aqui, também.

O texto, para além de muitooooooooooo bem escrito, está para fazer refletir e sobretudo, alertar.

Realidade ou não, a Bindi que o escreveu, soube dar-lhe aquele toque, k só mesmo mulher, sabe dar. Ela conseguiu pôr os sentimentos e coração da gente bem à prova, querendo talvez aliviar o peito de um homem, um pai, k não percebeu o k estava acontecendo com seu filho.
A distração não pode caber nesse amor único e sublime, não pode, mas, aqui, em ficção ou realidade, ela aconteceu.

Boa semana.

Beijos, com apreço e carinho.

CÉU disse...

Escutei o vídeo k já conhecia. Lindo! Roberto Carlos é Roberto Carlos!

Tudo de bom pra vocês e pra toda a Humanidade.

Arione Torres disse...

Que linda mensagem...
Tenham uma excelente semana, abraços e fiquem com Deus!!

Cadinho RoCo disse...

Nunca é tarde para que o amor se manifeste em nós fazendo com que dele nos manifestemos.
Cadinho RoCo

Carmem Grinheiro disse...

Olá meus queridos, a ti, em especial, Bíndi, por autoria dum texto tão real, que poderia ser história de qualquer um de nós, pois que, admitamos: criar/educar/gerir um filho não é tarefa fácil. Para além de que eles não nos chegam com manual de instrução e, o que funciona em pleno com um, não dá certo com outro, a sociedade em que vivemos, para além de não colaborar, ainda complica e prejudica muito a vida de um educador.
Um filho é um ser humano independente. Juntamente com suas características físicas, também traz uma personalidade, que, embora a educação vá "trabalhar", é a sua verdadeira motora.
É verdade que há pais que não sabem sê-lo.
É verdade que há pais ausentes, mesmo estando ao lado.
É verdade que há pais omissos por n razões.
Mas também é verdade que, há filhos, que dando as voltas que se der, não há como chegar a eles. Não há como demovê-los de suas razões, de suas revoltas, de suas escolhas, não há como arrancá-los da beira do abismo em que estão prestes a atirarem-se.
E a justificação (deles, filhos) para tudo o que fazem ou deixam de fazer está nos pais e/ou na vida ingrata que têm. Não. Mesmo que os pais sejam os piores pais do mundo, mesmo que suas vidas sejam uma "merda", como seres pensantes que são, tomam os caminhos que tomam por seus próprios pés. Mas, é inato do ser humano, culpabilizar o outro por suas próprias escolhas e falhanços.
Paralelamente, a sociedade em que vivemos, sobrevalorizando o consumo em detrimento das relações, e facilitando consumos viciantes (para enriquecimento duma máfia global) que são apresentados ao jovens, quase que em bandeja e, considerados como prova de superação e integração no grupo, tornam a vida destes seres na sua fase mais confusa, uma verdadeira batalha a superar.
É um cocktail explosivo.
Do outro lado, os pais guardam sempre a sensação de falha, de culpa - destruidoras de suas almas. Às vezes com culpa real, às vezes injustamente, após tanta luta inglória, mas sempre, talvez na mesma medida, a dor é atroz.

bj amg

Lua Negra disse...

Me perdi nesse texto carregados de sentimentos e inseguranças que carregam todos os pais.

Mais hoje, eu como filha, me perco nos corredores do hospital onde ele, no momento esta morando.
A incerteza do amanhã me angustia, mais as boas memórias que passamos junto me faz companhia em momentos obscuros onde ninguém sabe nada e a esperar é uma constante...

Agradeço por todas as visitas que vocês Ghost e Bindi, faz no meu cantinho "Natureza",suas palavras sempre me conforta de uma maneira suave e cálida.

Beijos no coração

silvioafonso disse...

Eu sei que estou ficando
chato, mas não tenho culpa
se gosto tanto do blog de
vocês...

Beijos ao casal.





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